Quando o assunto é século XXI, muitos tendem a dizer que é a era da liberdade. Os mais antigos se impressionam com as atuais crianças, os jovens e até mesmo as pessoas com pouca diferença de idade. Os modos, os costumes, as crenças e as vontades mudaram. A criança que já não brinca mais na rua, que não quer mais andar de bicicleta, prefere o videogame ou brincar e conversar com os seus amigos pela internet. O casal de namorados que transformou o portão e a sala de casa em espaço virtual a dois, já conseguem se sentir juntos e matam a saudade. Ontem, não havia contraposição às regras e lições de casa. Hoje, há desavenças, desarmonias e desacordos.
O fato é que com os passar dos anos, as pessoas foram criando “voz própria”. É como se tudo agora pudesse ser feito de outra forma. Desobediência dentro de casa, da escola, do trabalho e nas relações sociais. Aliás, será que isso foi um ponto realmente positivo e libertador para a humanidade? Em algumas situações sim, no que diz respeito a melhorias de qualidade de vida e dignidade do homem e da mulher. Mas me refiro a ordens caseiras, costumes ou mandamentos corriqueiros de outras origens.
A liberdade de expressão é uma garantia do ser humano, sustentada
Com o surgimento de um novo ambiente de comunicação, a internet, que a cada dia faz surgir novas ferramentas, esta questão também é deslocada para lá. O twitter, por exemplo, uma espécie de diário virtual, está ganhando adeptos no mundo inteiro e no Brasil não é diferente.
Neste mês, o jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil foi demitido por ter criticado via Twitter, a revista Veja, carro-chefe da editora Abril, que também publica a National.
Milanez criticou em seu perfil uma reportagem feita pela Veja sobre a nação indígena,. Nos seus comentários afirmou que a revista tinha tomado partidos preconceituosos a respeito do assunto. E, comparou, “é como ver um filme de guerra e torcer pelos nazistas”. O jornalista disse que ignorava a revista Veja, mas aquela publicação preconceituosa fez com que ele se manifestasse.
Demitido, ele assumiu que fez comentários duros, mas que tinham sido pensamentos do Felipe Milanez como pessoa e não como jornalista.
A questão é: até onde se consegue discernir em um perfil do twitter, quem é o Milanez pessoa e quem é o jornalista? Talvez seja impossível fazer tal diferença. E, completo o raciocínio, com uma citação do jornalista Cláudio Abramo sobre a ética jornalística. “Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista – não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão.”
Independente de qual for o propósito inicial de se fazer colocações no twitter, é preciso pensar no que será publicado. A internet disponiliza espaço para a liberdade de expressão, mas em muitos casos, como este, torna-se apenas um espaço de grande visibilidade, onde não há limites do que é dito, e que pode gerar perdas irreparáveis como a demissão deste jornalista. Segundo informações de alguns jornais, seus comentários chegaram aos ouvidos da chefia da editora, que tomou medidas cabíveis para esta circunstância. Portanto, todo cuidado é pouco. E uma questão precisa ser (re)pensada e discutida: será que a internet pode ser considerada um espaço livre de debates e de opinião? Neste caso citado, foi, mas trouxe uma grave consequência muito além do ambiente virtual.
Tylla Lima
